Gloucestershire


Saco.


Tudo porque é aniversário da mamãe, e ela inventou que está deprê porque o Josh não está com ela nesse dia, como se a mamãe tivesse passado algum aniversário com a gente desde que me entendo por gente.


Mamãe fez esse drama e conseguiu que a gente viesse pra esse fim de mundo. Eu, Dave, ela, as amigas da época bem mais legal e a Nova Geração. O asno escapou, dizendo que tem que trabalhar. Ele só trabalha em fim-de-semana que a mamãe resolve vir pra esse inferno. Tentei trazer a minha amiga Monica, mas mamãe disse que não, porque quando eu tô com a Monica eu fico muito mal-educada e largo a primeira ministra sozinha, o que é ridículo: a primeira ministra QUER ficar sozinha.


Somos como água e azeite, a primeira ministra e eu. Mamãe diz que éramos grandes amigas, mas isso quando tínhamos tipo um ano de idade e não sabíamos que tinha mais gente no mundo. E ainda dizem que somos parecidas! Minha própria família não me conhece!


Dizem que nós duas somos caladas, mas eu falo quando tenho alguém legal pra conversar, e a primeira ministra não fala porque a voz enferrujou. Dizem que somos compenetradas, mesmo que eu seja a pessoa mais distraída do mundo. É que a mamãe ainda não descobriu que existe MSN, e deve pensar que eu passo tanto tempo no note observando o acervo de algum museu ou lendo livros online. Aff.


Mas o pior mesmo é ter que dividir o quarto. Mesmo que os sete quartos da casa estejam vazios, a primeira ministra tem que ficar no meu porque somos melhores amigas. Mesmo que ela ainda seja uma criança e a gente passe o dia inteiro sem trocar uma palavra. E, como se não bastasse, ela tem que levar o nosso raiozinho de sol com a gente.


Onde eu vou, a primeira ministra vai atrás. Onde a primeira ministra vai, o raiozinho de sol vai também. Isso porque inventaram esse clubinho de meninas e meninos. Os meninos também andam juntos, mas a turma deles é bem mais legal. Eles vão à cidade, pegam meio mundo, voltam bêbados no meio da noite, e incluem o filho hippie da dinda em tudo que não seja ilegal. Enquanto isso, eu fico encarando a primeira ministra e secando a baba do raiozinho de sol.


E a culpa nem é minha. Acho que tem pessoas que tem o dom de encantar, e os meninos são todos assim. O Dave é lindo de morrer, e o Victor não é lindo, mas mamãe adora dizer que ele é um sedutor. E é mesmo. Sabe aquele cara que chega em qualquer grupo cheio de mulheres, mesmo que elas tenham noventa anos e usem andador, e deixa todas rindo feito umas retardadas? Pois então, ele é assim. E o hippie é a mesma coisa. Ele é engraçado. Pelo menos, faz todo mundo rir.


Acho que o meu único dom é estressar a mamãe. Ela vive dizendo pra mim “Baby, todas as minhas rugas têm o seu nome”. O legal é que ela não tem ruga nenhuma, mas ainda assim acho que, se tivesse, quem as daria seria o Josh e não eu.



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Josh

Papai levou o Josh com ele pros Estados Unidos. Não sei de quem fico com mais pena: se do Josh ou da vaca. Tá, da vaca. Ninguém é mais pentelho que o Josh.


Acompanhei tudo através da porta fechada do meu quarto, já que eu sou a Baby e, pra falar a verdade, dou apoio a tudo que tire o Josh do meu pé. Foi assim:


Na terça-feira: cheguei da escola e papai, mamãe e Josh estão aos berros na sala, com o Dave tentando acalmar geral, o asno viajando e a vaca ausente. Perguntei o que estava acontecendo, já que me interessa muito ver o Josh levando esporro, e mamãe falou para eu ir para o meu quarto. Ok. Fui.


Terça-feira à noite: Reunião das amigas da mamãe. Do quarto, ouvi a campainha tocar várias vezes e comecei a ficar curiosa. Não estava antes porque o Josh só faz merda, e vê-lo levar esporro acontece dia sim, dia também. Mas se a mamãe chamou o Clube da Época Bem Mais Legal, então a coisa deve ter ficado mais feia que de costume. Deu até vontade de participar, mas aí a dinda ia me agarrar e me encher de beijos. Fiquei no quarto.


Quarta-feira: O papai chamou o Dave e a mim para almoçar. Eu disse que iria se a vaca não fosse, e ele respondeu que ela tem nome, que me ama (bleargh mil vezes) e só quer ser minha amiga, e que não havia sido convidada mesmo. Já que era assim, papai podia ter me poupado da lição de moral. Foi bem tenso, porque papai e Dave não se dão. Minha amiga Monica, que faz terapia desde que nasceu e que por isso é metida a grande psicóloga, diz que é porque eles são muito parecidos. A Monica fica um saco quando veste roupa de Dra Freud, mas acho que ela tem razão. Os dois estavam putos com o Josh e reagiam pulando no pescoço um do outro.


O barraco todo foi porque Josh estava bêbado na escola, e por isso papai resolveu levá-lo com ele para os Estados Unidos para “se tratar”.


Para um guitarrista mundialmente famoso, o papai é bastante careta. E o Josh é bastante burro.


Sou da mesma opinião que o Dave, mesmo que eu odeie a sua mania de machucar o papai. Dave falou que Josh não é alcoólatra e não precisa de tratamento, e que tem quase idade legal pra beber. Que ele nunca bebe de manhã, não bebe nem todo dia, e exagera de vez em quando como todo ser humano normal. Que se estava bêbado na escola era porque queria chamar a atenção, e que não faria isso se o papai estivesse menos preocupado em trepar com a vaca.


Papai ficou passado.


E, de boa, papai se preocupa bem menos em trepar com a vaca do que mamãe se preocupa em trepar com o asno.


O Dave é engraçado, não de uma maneira hahaha. Eu sei que ele está com ódio do Josh, mas se papai ataca, ele defende só pra ser do contra. E o Dave é legal, sabe? Ele é o cara mais legal do mundo. Ele tem a maior paciência com a mamãe, livra o Josh de todas as roubadas e me trata como se eu fosse uma princesa. A única pessoa que ele odeia é o papai, que é um cara tão legal quanto ele. Vai entender.


Depois que papai e Dave terminaram o barraco, papai disse que adiou a passagem de volta para ajeitar a mudança do Josh. Fiquei MUITO feliz:


-Vou me livrar do Josh pra sempre.


-Papai vai ficar mais tempo.


-Vou conseguir meu próprio apê.


Eu e o Josh temos quartos no apê do Dave. A merda é que o Josh não sai de lá. E, se ele está lá, eu tenho que ficar com o asno. É que o asno respeita portas fechadas, e o Josh, não. Até dava pra agüentar enquanto tudo o que eu tinha que fazer era jogar um sapato na cabeça do Josh e mandar ele sair, até o dia em que ele me pegou trepando.


O pior de ser pego trepando é ser pego trepando por um irmão como o Josh.


O retardado fez chantagem. Juro, chantagem de verdade. E só por ruindade, porque a mamãe dá tudo o que ele quer. E eu não me importo que as pessoas saibam que eu trepo. Todo mundo faz isso, e de Baby eu só tenho o apelido. Mas foi com um amigo do Dave, e ele me mataria.


Passei um tempão sustentando o vagabundo do Josh, até que veio a vingança. Quem pegou o Josh trepando fui eu, e com uma amiga da mamãe.


Amiga da mamãe é pior que amigo do Dave.


Sou decente e não fiz chantagem nenhuma. Só queria tirar o Josh do meu pé. Mas ele me odeia, de verdade. Não da maneira que o Dave odeia o papai, que eu acho que é da boca pra fora. O Josh deve até fazer vodu com o meu nome. Mamãe diz que é besteira minha, que é porque ele é o irmão do meio e tem ciúmes. Não sei por que ele teria ciúmes de mim, se o Josh tem tudo a mais do que eu. Ele tem mania de dar uns ataques de raiva, todo mundo fica com medo dele e só faz as suas vontades. Eu sou boazinha e tenho sempre que abrir mão das coisas. Desde que somos pequenos, o Josh me provoca, a gente briga, e mamãe dá razão pra ele pra não ter que agüentar os ataques. E é ele que se acha no direito de ter ciúmes.


Eu não tenho ciúmes nenhum porque preferia ser uma lesma a ser o Josh.



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A Família

Meus pais se separaram quando eu era muito pequena, e é estranho pensar que eles já foram casados. Mamãe parece uma fadinha e papai um ogro, assim tipo Shrek e Fiona se ela não tivesse virado ogra. Além do mais, papai é normal e mamãe, não. Quer dizer, mais ou menos. Papai é um guitarrista famoso, e tocava em uma daquelas bandas de heavy metal. Graças a Deus ele não se jogava no chão enquanto tocava e fazia cara de quem estava tendo um orgasmo, mas tinha cabelo comprido, usava calça justa, e isso já é mico suficiente. Aí, há um tempo atrás, eles resolveram se separar, e foi quando o papai aceitou o emprego nos Estados Unidos, produzindo CDs. Pode parecer fantástico ter um pai famoso. Não é. Não serve nem para eu conhecer o Justin Timberlake.


Meus pais se conheceram por causa da banda. Diz a mamãe que ela viu meu pai tocar em um bar, e ficou atrás dele um tempão até que eles começassem a namorar. Dá pra entender o cu doce do papai. A mamãe é linda, do tipo que te pira por ser filha dela. Ela é toda delicada, toda loura, toda perfeita. Não tem um nariz grande, uma boca torta, uma pinta esquisita, nada! Mas ela é cheia de frescura. Ela inventa as modas dela e, se você não gostar, ela te enche o saco até te vencer pelo cansaço. Além disso, o quarto dela é mais rosa que o meu. Cara, ela tem QUARENTA E UM ANOS e um quarto ROSA!!! Dá pra imaginar como era quando tinha dezessete? Pois é. Coitado do papai.


Acho que foi isso, ela venceu o papai pelo cansaço, e eles acabaram namorando. Mamãe largou a faculdade quando se casou, e adora dizer: “Eu vivi pra vocês e pro seu pai. Eu larguei os meus sonhos por vocês quatro”. Tá, não foi bem assim.


O papai conta que, quando o Dave nasceu, eles viviam espremidos em um apartamento de um quarto, e o berço tinha de ficar na sala. Mas nessa época a banda dele já fazia sucesso, e logo depois as coisas melhoraram. Quando o Josh nasceu, eles já estavam na casa onde moramos hoje. Depois vim eu e, quatro anos depois, o papai conheceu a vaca e saiu de casa. Mamãe diz que o papai é um adúltero e que já tinha um caso com a vaca há não sei quanto tempo, mas basta dar uma olhada no meu pai pra saber que ele não é dessas coisas. Ele é normal. A vaca é maluca, mas pelo menos tem a idade dele. O asno é tão novo que deixou a minha amiga Monica de quatro. Então, na boa, prefiro acreditar no meu pai, mesmo que ele nunca tenha me dado a sua versão.


Parece que eu não me dou bem com a mamãe, o que não é verdade. É muito fácil se dar bem com ela, pois não tem nada que ela discorde. Teve uma época que, quando o Josh não estava me infernizando, a gente brincava de ver o que conseguia dela. A gente pedia as coisas mais doidas, e ganhava tudo. Juro, uma vez eu pedi um cavalo, e minha mãe mandou construir um haras na casa de Gloucestershire. Aí eu me toquei que, se ela fizesse isso, eu teria de IR a Gloucestershire. Esquece. Um cavalo não vale tanto.


Temos essa casa em Gloucestershire. Quer dizer, meus avós têm essa casa em Gloucestershire, mas eles foram mais espertos e não dão as caras por lá. Quando eu era pequena e não tinha escolha, ia sempre. Se pudesse levar meus amigos, ainda iria. É, eu posso levar meus amigos, mas queria levá-los sem a minha mãe. Não tem nada pra fazer lá, mas dar uma festa seria muito bacana. É uma casa de dois andares, com piscina, um terreno enorme, a milhas de distância da civilização. Dave conta que, quando os meus pais eram casados, era muito legal ir pra lá e pescar com o papai no lago. Acho que ia odiar pescar, mas normalmente tudo com o papai é mais divertido que com a mamãe. Odeio o Dave. Ele pegou toda a parte boa.


Dave diz que mamãe ficou bem mais maluca depois que se separou, que ela não foi sempre tão mais nova que a gente. Eu sei lá, desde que me lembro ela tem esses projetos. Mamãe também tinha uma banda. Na época que ela conheceu o papai ela tocava, aí largou tudo para “cuidar de nós quatro”, e depois fez outra banda, inclusive com a tal Anna que faz todo mundo me chamar de Baby. Ela também tocava rock. Vai entender. Era um mico sem tamanho ver a mamãe de roupa justa e cara de má atrás da bateria, além de ser MUITO esquizofrênico. Uma vez um colega da escola, que não sabia que eu era filha dela, claro, a chamou de gostosa. Quer coisa pior? Era o menino que eu tava a fim. O que você faz quando o cara que você gosta chama a sua mãe de gostosa? Se mata?


O Dave é meio que a memória viva da Nova Geração, já que ele é o mais velho e se lembra de tudo. Josh lembra também, mas ele não conversa, pelo menos não comigo. Dave diz que mamãe está certa, papai é um adúltero e eles se separaram por causa da vaca. Mas o papai é tão bonzinho que continua com a vaca até hoje, enquanto a mamãe começou a namorar um monte de tipos esquisitos até chegar no asno. Não fomos exatamente avisados que ele existia até que ele entrou lá em casa, já cheio de malas. Pelo menos ele não é como a vaca, que tenta mandar na gente. Não que fosse conseguir. Se a vaca não consegue, imagine um menino por quem a minha amiga Monica é apaixonada.



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Baby

Todos me chamam de Baby. Minha mãe já tentou me explicar que é lindo, doce (tudo pra mamãe é lindo e doce) e serve para me diferenciar da Anna, amiga dos meus pais dos tempos muito mais legais etc e tal. Mas eu sei que, como quase tudo na minha vida, a culpa é da dinda. Ela me fez assistir a Dirty Dancing para mostrar que eu não era a única Baby do mundo, e, quando contei para a Monica, ela fez outra pergunta muito boa:


-Por que todo mundo quer te convencer a gostar de um apelido? Se fosse nome, tudo bem.


E eu gosto do meu nome. Ninguém que eu conheço gosta do próprio nome, mas eu gosto do meu. Só que virei Baby. Quando fiz dez anos, anunciei que não responderia se me chamassem assim. Deu certo durante meio dia. Todo mundo ficava meio entalado com a palavra Anna, até que a minha dinda chegou para a minha festa, e eu vi que ela estava sofrendo. Tipo, sofrendo mesmo para me chamar só de Anna. Voltei a ser Baby no minuto seguinte.


Eu não sou egoísta. Tento agradar os outros, de verdade. A merda é que cada um quer que eu seja uma pessoa diferente, aí fica difícil. Mamãe quer que eu seja sua melhor amiga, e tudo na sua vida é feito para isso. Por exemplo, não levo mais a Monica lá em casa desde que ela se apaixonou pelo asno. Se a sua mãe é casada com um cara tão novo que a sua amiga se apaixona por ele, é porque ela é tudo, menos sua mãe.


O Dave, que devia ser meu irmão, é meu pai. Meu pai, que devia ser meu pai, é meu pai mesmo, mas mora muito longe. Quando ele aceitou o emprego nos Estados Unidos, quis me levar junto. Eu queria ter ido, mas isso envolveria morar com a vaca.


Para a vaca, eu sou filha. Aff. Ela que tenha os dela, mas não com o papai.


Não sei o que sou para o Josh. Ele nem sabe quem ele é, muito menos o que os outros são.


Para a dinda, eu sou a Baby. É assim que ela me vê, e eu devia ser muito pequena pra lembrar, mas tenho certeza que ela bateu tanto nisso até que todo mundo me visse como bebê também. Já pensei em reclamar (segundo a mamãe, se existisse um cargo chamado “Especialista em Reclamação”, eu seria a melhor profissional da área), mas sempre me lembro da cara da dinda quando eu quis ser chamada de Anna. Não SU-POR-TO ver aquela cara de novo. Então, para me poupar do mico, eu não deixo que meus amigos a conheçam.


Para os meus amigos, eu sou Anna. Anna um pouco maluca, baladeira, engraçada. E o papai ainda me pergunta por que eu passo tanto tempo fora de casa. Aff.


Mas acho que comecei a contar tudo isso por causa do meu niver. Mamãe também fala, quando eu começo a contar uma história: “Conclua, Baby. Conclua.” Sou boa em reclamações e péssima em resumos, eu acho. Culpa do papai, que quase nunca está em Londres, e quando me encontra pede que eu conte “tudo, Baby. Tudo.” Com pais assim, eu devia ser esquizofrênica.


Foi tudo um porre. Tudo muito chato. O asno não come quase nada, então tem uns três restaurantes na cidade aos quais a gente pode ir, e é claro que o niver era meu, mas ele come a mamãe, então tem prioridade. A tarde com o papai foi um saco, não a parte em que eu tinha que contar “tudo, Baby, tudo”, mas a vaca tem opinião. Sim, OPINIÃO. Ela se METE. Ela ANALISA o que eu conto.


Depois fomos todos à casa da dinda, uma confusão sem fim, todo mundo falando ao mesmo tempo. É tão poooobre! Não sou preconceituosa, nada contra os pobres, mas tem uma coisa de cortiço na casa da dinda que me mata. Está sempre cheia, todo mundo fala aos berros, e ao mesmo tempo é tudo tão... l-i-m-p-o! Tudo tão... combinado!


Pausa para falar de festas:


Mamãe adora festas. Ela planeja todas, até o aniversário do filho do porteiro da escola. Isso não quer dizer que suas festas sejam boas. É bem ridículo, pois ela quer organizar tudo, e eu fico vendo as pessoas dando um monte de desculpas, dizendo que já prometeram pedir ajuda pra fulano e cicrano. O problema é que ela é tradicional pra burro e bastante louca, e viaja em umas idéias patéticas tipo globos de discoteca e esculturas de gelo. Quando fiz onze anos, mamãe chegou pra mim com um álbum enorme e perguntou qual era o tema.


-Que tema?


-Da sua festinha, Baby.


Hum.


Papai ainda não tinha ido para os Estados Unidos, e disse que ele ficaria responsável pelo meu niver. Que eu já estava grande e não tinha cabimento me dar uma festa da Disney. Legal, né?


Não. A idéia do papai de uma festa adolescente era fechar o boliche, e pedir pizza e coca-cola pra todo mundo.


A intenção foi boa, mas, em vinte anos, as festas de adolescentes mudaram um pouco. Então, com essas escolhas, fico com a casa da dinda. Pelo menos meus amigos não vão e não sou humilhada em público.


Como já disse, meus pais são muito bem intencionados. O que pega é que tem um monte de coisas que eles não sabem a meu respeito.


Eles não sabem que:


- Eu fumo;


- Eu bebo socialmente;


- Eu não curto festas temáticas há muito tempo;


- Eu não sou mais virgem;


- Eu gosto de um baseado para desestressar depois da aula;


- Eu tenho um segredo.


Afinal, eu sou a Baby.





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Niver

Aniversários em família só deveriam existir quando se tem família, ou quando se tem uma família normal. Que saco!

Fala sério. Se o dia é meu, eu deveria fazer só aquilo que estivesse a fim. Mas, apesar de ser o meu dia, vou ter que fazer a vontade de todo mundo, menos a minha.

Roteiro que fizeram pra mim:

- Encontrar o papai, que está na cidade só para me ver, e a vaca da mulher dele.

- Sair com a mamãe, que não pode me ver junto com o papai, então vou ter de reservar uma hora só para ela. E, para um pouco mais de desespero, o asno do marido dela vai estar junto.

Mamãe e papai podem se encontrar. Com a mamãe é sempre tudo assim: bem educado, bem civilizado. Ela nunca eleva a voz, peida Dior, e ainda me mata de vergonha brincando de ser baterista, como se tivesse idade ou marra pra isso. O problema é que a mamãe odeia a vaca e o papai não suporta o asno. Não, claro que não é recaída. O papai não quer comer a mamãe, e esta... ah, sei lá o que ela quer da vida.

- Encontrar a dinda.

Dinda e os meus pais são melhores amigos, mas não posso vê-los juntos porque a dinda tem aquela agenda dela, e não tinha outro espaço pra mim porque o asno tem que fazer massagem linfática/sobrancelha/malhar a bunda ou outra viadice dessas, e o papai chega hoje dos Estados Unidos. Bleargh, não agüento!

O pior de tudo, de tudo mesmo, é ver a dinda. Primeiro, porque tenho de chamá-la assim. Estou velha demais para isso, não me sinto à vontade, mas a mataria se me referisse a ela pelo nome, então ela acabou virando “psiu”. A dinda não é má pessoa. Talvez até seja a melhor pessoa do mundo, mas não é a melhor pessoa para mim. Tudo nela e naquela casa é esquisito, com cheiro de desinfetante. Segundo papai, a dinda é a guitarrista mais talentosa que ele já conheceu ou até ouviu na vida. Como assim, a melhor guitarrista do mundo mora em uma casa tão organizada que eu me visto pra combinar com a decoração? Ridículo, né? Mas eu faço isso. Deve ser por isso que ninguém naquela casa bate bem.

Tem o dindo, que ainda bem me deixa usar o nome dele, mas fico sem graça por causa da dinda. Tem a Angela, que todo mundo queria que fosse a minha melhor amiga. Sem chance! Dizem que um dia a Angela vai ser primeira-ministra, e ser amiga de uma pessoa dessas é contra a minha religião. Os irmãos dela estão sempre drogados SEM usar drogas. Aff. Se for pra viajar, pelo menos que façam direito.

A Angela e os irmãos fazem parte da Nova Geração, o grupo de criaturas que nasceu a partir do fim dos anos 80. Quem nos chama assim, de Nova Geração, é o papai, e acho que é por causa daqueles filmes de ficção científica que ele gosta. Não tem Star Trek – Nova Geração? Ou Star Wars – Nova Geração? Não sei. Adoro o papai, mas odeio tudo que ele gosta, incluindo os filmes e a vaca. Então, a Velha Geração são os meus pais, os dindos e os amigos, e ele dizem que viveram uma época maravilhosa, e no tempo deles era tudo mais legal, etc e tal. É meio difícil de acreditar, vendo os penteados, as roupas, e as músicas que dão vontade de vomitar de bregas. Hoje em dia são todos velhos metidos a adolescentes, e nos obrigam a andar grudados porque “temos que ser amigos, pois somos a Nova Geração”. Somos todos uma escadinha, e meu irmão Dave podia ser pai do Aliaune, mas temos que ser amigos. Ninguém merece!

Dave não é o primeiro da escada. O primeiro é o filho mais velho da dinda. Conversar com ele é como uma viagem de speed. Ele é tão acelerado que você fica se perguntando o que pode ter de errado com você. Ele e Dave são os únicos que conseguiram cumprir a missão da Nova Geração de sermos unha e carne.

Já o Dave é tão normal que chega a ser anormal. Eu costumo dizer que ele incorpora o espírito do papai só para me atormentar quando este está viajando. É implicância minha, o Dave não me inferniza muito, e nem o papai. Nenhum dos dois fica na cidade tempo suficiente para isso.

Em seguida, meu irmão Josh, prefeito e único habitante da Joshlândia, eu, os gêmeos da dinda (a futura primeira-ministra e o irmão que acha que é hippie). Quase fechando a fileira, vem nosso “raiozinho de sol”.

A minha amiga Monica já me perguntou se a Emily tem Síndrome de Down de propósito. Eu achei que ela podia ter razão e perguntei pro papai, e foi a única vez que ele quase me bateu. Na época eu não entendi direito, mas hoje faz muito sentido. A Emily não é mais anormal que o resto da Nova Geração, tirando o rosto mais redondo, os olhos mais puxados, e mais baba que os outros de nós. Só que devemos agir como se ela iluminasse as nossas vidas. Tudo o que ela faz é lindo e emocionante, mesmo que a mamãe diga que temos que tratá-la como se fosse exatamente igual a nós. Hipócrita pra burro, mas a mamãe faz bastante isso. E eu pago de cretina só porque não tenho saco para essas coisas.

E, no fim da escadinha, que tal um nigeriano adotado chamado Aliaune? Depois ainda me perguntam por que eu sou assim.

Merda, mamãe dizendo no corredor que ela e o asno estão me esperando para sair. Sem chance de me divertir, mas talvez eu consiga umas roupas novas.



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